Minha alma mora em Paris

Sempre recebo relatos de pessoas que passaram por Paris e levaram um pouco da cidade consigo, seja uma foto, uma gravura, um mapa do metrô todo amassado, uma lembrança. Agora me deparei com esse relato, ao mesmo tempo, romântico, artístico e ao mesmo tempo, tão real… A querida Vera Targino, de São Paulo, conseguiu descrever com poucas palavras, o que muitos sentem. Eu não poderia deixar de compartilhar com vocês:

 

 

“A primeira vez que estive em Paris, muitos anos atrás, chovia e chovia. Era aquela chuva derivada da neve derretida, que costuma cair como uma cortina silenciosa e parece congelar os ossos. E como chove em Paris!

Era meados de Janeiro e em meio a tanta água e tanto frio, munida de guarda-chuva, manteau, cachecol, gorro e botas eu parei, extasiada. Nunca tinha visto nada mais lindo em minha vida.

Já havia visitado vários países europeus, cidades muito belas. Mas algo aconteceu comigo em Paris. Até hoje pessoas dizem que sou meio maluca; que sofro de ideia fixa. Que sou “détraqué”. E ainda outros me consideram pernóstica. Não é nada disso.

Quando conheci Paris era como se eu realmente estivesse voltando para casa. Eu me encontrei, um sentimento que não consigo explicar. Ou talvez sim, em outra vida. O que sei é que eu já vivi em Paris.

Fui uma mulher do povo, que lá nasceu, cresceu, amou, adoeceu e morreu. Uma vida trivial. Mas uma vida de alguém que amava a cidade em toda a sua plenitude. Nestes vários anos, estive em Paris por 16 vezes.

Não me canso de caminhar sem rumo pelas suas ruas e vielas, seus becos e lugares escondidos; admirar sua esplêndida arquitetura, tocar as paredes históricas de seus prédios, que parecem me confidenciar seus segredos de séculos atrás; sentir o perfume que exala de suas boulangeries, inúmeras, e comprar pães artesanais de sabores específicos.

As fromageries são um caso à parte: os aromas da infinidade de queijos que lá estão não são para os fracos do estômago. E as madames cortam fatias transparentes destes queijos fragrantes para o delírio do meu paladar, jamais satisfeito. Das perfumarias, outros aromas inebriantes invadem as calçadas. É difícil escolher qual fragrância comprar.

Entro nos museus e meus olhos se encantam com as obras mais maravilhosas que humanos, tocados pelo Altíssimo, já produziram. Percorro as livrarias do Quartier Latin, perco-me em meio aos volumes dos assuntos mais diversos, dispostos sem atenção ao ordenamento.

Ah… e vou às igrejas. Em nenhum lugar encontrei tantos templos sagrados, tão lindos. esbanjando Arte. Sento-me nas cadeiras e ouço a música que organistas invisíveis parecem dedicar a mim, somente. Estou no Paraíso.

Continuo meu caminho. Vou até o Jardin de Luxembourg, deleitar-me com o colorido das tulipas, enormes, dos mais diversos tons que já vi. Dirijo-me ao Pantheon, passo pela Escola de Direito da Sorbonne, em direção à rue de Mouffetard. Em meio a tantas delícias, compro framboesas e pêssegos carnudos, doces e sumarentos.

Há tanto o que ver e fazer. Vou admirar o pôr do sol da Pont des Arts. Casais enamorados passeiam, concentrados uns nos outros. Hoje à noite vou a um recital de Chopin na Eglise de St. Julien le Pauvre , mas agora estou cansada.

Compro pão, queijo, iogurte de baunilha no Monoprix do Marais, ouvindo os sons mágicos dos sinos da Notre Dame. Recolho-me ao hotel, delicio-me com meu lanche e descanso para o recital da noite, memorável como sempre.

Meu coração explode de tanto amor. Estremeço. Estou em casa. Minha alma mora em Paris.”
Vera Targino

 

Créditos da imagem de capa deste post: Stormie Laine Knott

 

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Meu nome é Rogerio Moreira, além de jornalista, sou publicitário e estudei em instituições como PUCC, Unicamp e FGV. Apaixonado por história, acredito que o estudo de nosso passado nos ajuda a entender como nos tornamos o que somos hoje. Nesse blog, busco reunir e compartilhar curiosidades e histórias incomuns sobre Paris e a cultura francesa. Dessa forma pretendo mostrar o lado quase que desconhecido da cidade, fora dos roteiros turísticos tradicionais. Vamos comigo nessa viagem?

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